sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Avanço nas pesquisas contra o HIV


Mais alguns passos foram dados na busca por mecanismos de neutralização e até, quem sabe futura prevenção ao vírus HIV, transmissor da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, ou mais popularmente conhecida AIDS. Neste mês foi publicada uma pesquisa na science sobre a estrutura e funcionalidade de um potente neutralizador ou anticorpo (mais especificamente o VRC01) que atua em uma glicoproteína muito pouco variável do envelope viral, a gp120.

O sistema imunológico, tão amplamente discutido nas aulas de biologia, é formado por um conjunto de células e moléculas responsáveis pelo mecanismo de defesa contra qualquer parasito, ou agente estranho, que entre em contato com nosso organismo. Existem dois tipos de imunidade, a inata e a adquirida. A inata é a primeira linha de defesa e por isso não possui especificidade. Quando a imunidade inata não consegue eliminar o antígeno, a adquirida entra em ação. Suas principais células são os linfócitos T e B, o primeiro apresenta ação efetora e é também nele o alvo de ataque do vírus HIV, já o segundo produz anticorpos, os quais podem, entre outras ações, neutralizar os vírus.

Para o estudo detalhado deste anticorpo (VRC01), como sua estrutura química e ligação à glicoproteína do HIV, os pesquisadores utilizaram o soro (composição do sangue, que contém as células do sistema imunológico) de seres humanos que apresentavam a doença em uma forma não progressiva. Desta forma eles identificaram e analisaram por uma técnica de cristalografia, a ligação entre um antígeno específico (glicoproteína gp120) de vários tipos de vírus causadores da AIDS, e a região de um dos anticorpos (VRC01) que o neutralizava.

Apesar da alta taxa de mutação do vírus HIV, como mesmo explicado no texto postado pela Maísa, os pesquisadores demonstraram que em 190 cepas ou tipos de HIV, 173 foram neutralizados pelo anticorpo VRC1 e apenas 17 eram resistentes à ação do anticorpo, isso corresponde a 10% do total.

A pouca variação na região gp120 do envelope viral e a quantificação da eficácia de neutralização do anticorpo em 90% dos diferentes tipos de HIV, demonstram que o VRC01 é um dos mais eficientes anticorpos produzidos pelas células B para neutralizar a infecção, reprodução descontrolada destes vírus e consequentemente a morte dos linfócitos T.

Mas afinal o que todos esses achados podem fazer para as pessoas portadoras do HIV ou para prevenir a população de possíveis infecções? O tratamento ou cura para a AIDS ainda não é possível, mas muitas pessoas vivem com o vírus em forma latente, outras e a maioria utilizam de medicamentos para impedir sua proliferação e ataque a mais células T ou linfócitos T. Entretanto esses medicamentos apresentam vários efeitos colaterais e o possível uso de anticorpos, como o VRC01 produzidos sinteticamente e em concentrações ideais, poderiam diminuir o uso destes medicamentos e assim melhorar a qualidade de vida destas pessoas. Por outro lado, a identificação destas moléculas e os genes que controlam sua produção, por si só são conhecimentos a mais para futuras pesquisas que busquem um designe para uma vacina contra o HIV. Entretanto é bom lembrar que imunizações para este vírus pode não ser eficaz por muito tempo, assim como a vacina para a gripe aviária e tantas outras doenças nos quais os vírus apresentam RNA como material genético.

Portanto, a melhor forma de evitar a AIDS ainda é a prevenção, e por simples atitudes racionais como: o uso de preservativos e não compartilhamento de objetos cortantes, todos podem evitar o aumento nas estatísticas de infecção deste vírus.

Obs: a foto acima é retirada do artigo e se refere a estrutura (nível atômico) do anticorpo VRC01 ligado a glicoproteína gp120 do envelope do vírus HIV-1.

Bibliografia:

ZHOU T. et al. Structural Basis for Broad and Potent Neutralization of HIV-1 by Antibody VRC01. Scince, vol. 329, 2010, 811-817.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Receita da Vida

Hoje em dia nós sabemos que existe sim um livro de receitas bem grande que carrega todas as informações da vida. A esse livro foi dado o nome Ácido Desoxirribonucléico, conhecido popularmente como DNA. Essa fita composta por fosfato, pentose (a desoxorribose para DNA e ribose para RNA) e as bases nitrogenadas que são 4 tipos que compõem o DNA, a adenina (A), citosina (C), guanina (G) e timina (T). Para a composição do RNA temos no lugar da timina a uracila (U). O RNA também contém a informação para a vida, mas nos organismo eucariontes ele funciona como um carreador da informação do DNA que está localizado no núcleo para os ribossomos, organelas produtoras de proteínas, estes localizados no citoplasma. No entanto, em alguns tipos de vírus, o RNA funciona como o DNA, ou seja, ele é o centro da informação genética.
Mas por que o DNA é mais amplamente usado para essa função ao invés do RNA? Simplesmente porque o DNA possui uma fita dupla, que lhe confere maior estabilidade e menor chance de erro em sua replicação pois possui uma "fita reserva" para a conferência dos dados. O RNA por ser de fita simples não possui tal aparato, e seus erros são dificilmente corrigidos. Para entender melhor, podemos utilizar os vírus como exemplo. O vírus que causa o sarampo é um vírus de DNA, e por causa da sua estabilidade genética, nós humanos, conseguimos desenvolver uma vacina contra ele, que nos previne de adquirir tal doença. No entanto, vírus como o causador da gripe (os influenza) e o causador da AIDS (Síndrome da Imunodeficiência em Português), são vírus de RNA, que são altamente mutáveis. É por isso que todos os anos existem campanhas de vacinação contra a gripe. e talvez a resposta de porque ainda não existe (entre vários outros impedimentos, como a fato de esse vírus atacar as células do nosso sistema imunológico) vacina ou cura contra o HIV.
Esquema representando a diferença entre a estrutura do DNA e do RNA.

Mas o homem agora está procurando outras formas de manipular a vida. Há alguns meses, Venter et al, publicaram na Science que haviam conseguido "fazer" uma bacteria com DNA artificial. Para conseqguir tal feito eles selecionaram uma espécie de bacéria, a Mycoplasma mycoides, e colocaram o seu DNA em um fungo, um tipo de levedura da espécie Saccharomyces cerevisiae, o mesmo fungo utilizado para a produção de pãe e cerveja. Essa fungo fez várias cópias desse DNA bacteriano. A partir desse DNA os pesquisadores fizeram modificações nele, com sequências criadas em computador, modificações estas, que eles poderiam reconhecer depois que a nova bacteria crescesse. Depois que o "novo" DNA estava pronto eles o pegaram e o colocaram dentro de outra bacteria, a Mycoplasma capricolum, que possuia uma forma completamente diferente da bacteria doadora do DNA. Então, a "casca" agora dominada pelo DNA modificado de outra bacteria, passa a controlar e se replicar. A nova bactéria passa a adquirir a forma da antiga, pois era essa forma que está identificada no DNA e, o mais interessante e marcante, uma das modificações que os pequisadores fizeram foi que essa bactéria passaria a produzir uma proteína fosforescente azul, o que daria certeza que o DNA modificado era viável, ou seja, que ele era funcional, mesmo estando modificado.

Bactéria artificial (acima) e bactéria nartural (abaixo).

Esse experimento é de fato fascinante, apesar de o homem ainda não ter criado uma vida completamente inédita, já está passos à frente de entender como a vida foi moldada ao longo da evolução. No dia que entendermos isso, ai sim seremos capazes de CRIAR VIDA. Apesar de isto criar fascinação em alguns, cria medo e até revolta em outros. Além que todas as implicações científicas e tecnológicas, há ainda questões filosóficas e morais, e ainda, as religiosas. De qualquer form, existem pessoas de todos os tipos de crença e concepções, e essas, muitas vezes atrapalharam o desenvolvimento da humanidade, como podemos perceber claramente pela história. E fatos como esse nos levam a pensar até onde o homem vai chegar? E mais ainda, até onde ele pode chegar? Isso ninguém ainda sabe responder, mas o que podemos responder sem medo é que o homem ainda não tem tecnologias o suficiente para desvendar o mundo, e que a criação dessa bacteria abre portas para isso, e que com certeza , essa falta de tecnologias é o que ainda impede o avanço da ciência.

Para entender melhor, você pode assistir a estes vídeos disponíveis youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=k2XTZcdSMWk - Bactéria controlada por genoma sintético é o primeiro passo para a criação de vidas artificiais - Notícia/Divulgação

http://www.youtube.com/watch?v=Y5MpypKl1MY - Célula sintética! Organismo vivo é criado a partir de um novo código genético feito por cientistas - Notícia/Divulgação.

http://www.youtube.com/watch?v=cV_pG0qPcxA - Vida Síntética parte 1 - Documentário Discovery Chanel

http://www.youtube.com/watch?v=Y3ttNjtd3yI - Vida Síntética parte 2 - Documentário Discovery Chanel

http://www.youtube.com/watch?v=FU4mU-tNJC4 - Vida Síntética parte 3 - Documentário Discovery Chanel

http://www.youtube.com/watch?v=3XHvU_iVwgU - Vida Síntética parte 4 - Documentário Discovery Chanel

http://www.youtube.com/watch?v=kOLmO4lJh6E - Vida Síntética parte 5 - Documentário Discovery Chanel


Fonte principal: Creation of a bacterial cell controled by a chermically synthesizes genome, Venter, Science, 2010.


Texto escrito por: Maísa Santos

quarta-feira, 21 de julho de 2010

NOTÍCIA: alunos do polivalente são campeões de Festival de Quadrilha



No dia 18/07/10, último domingo, um grupo de alunos, representando a escola Estadual Governador Milton Campos (Polivalente) ganhou o II Festival de Quadrilha do Grupo Pescadores de Jovens (GPJ). Os alunos dançaram muito bem, com sincronia e criatividade e impediram a escola SESI de levar o bicampeonato...


Aê.... alunos! Fiquei com orgulho dos meus pequenos, rs e da minha ex-escola!!!
Fotos: GPJ 2010.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Aprendizagem virtual e suas potencialidades pedagógicas


A evolução do pensamento em educação vem tornando-se cada vez mais amplo, devido não só ao avanço tecnológico, mas também aos vários estudos na área, os quais têm como objetivo produzir novas metodologias que otimizem o processo de ensino-aprendizagem, tanto na aquisição de conhecimentos quanto na satisfação de trabalho de ambos, educadores e educandos.

Neste artigo produzido por Honório Salmerón, Sonia Rodriguez e Calixto Gutiérrez, eles fazem uma análise da utilização de tecnologias da informação e comunicação e também elementos pedagógicos provenientes de aproximações socioculturais.

A aprendizagem virtual, como as oferecidas pelas plataformas para o aprendizado colaborativo mediado pelo computador favorecem a comunicação, a mediação e a construção compartilhada do conhecimento. O uso destas ferramentas tecnológicas que contenham inovações educativas pode ser de grande relevância tanto na gestão de programas educativos, quanto em processos de educação universitária no desenvolvimento de unidades curriculares, estendendo assim as fronteiras para fora da sala de aula.

Nesta junção de tecnologias de informação e educação, se expande a inclusão de modalidades de ensino-aprendizagem não presenciais e semi-presenciais ou blended learning, as quais usam da internet como tecnologia de distribuição de informação e formação de conhecimento, misturados com métodos de ensino baseados na aprendizagem colaborativa e cooperativa, as quais eles consideram como bastante adequada, pois proporcionam aos alunos um contexto virtual de aprendizado entre iguais com interações educativas de qualidade.

O uso exclusivo desta ferramenta para acumular informação, não é uma ação pedagógica. Somente adquire valor pedagógico quando as interpretamos como artefatos mediadores entre o docente e o aluno ou entre iguais que proporcionam um contexto educativo singular e virtual facilitador de processos interativos de co-construção de conhecimento.

Neste contexto alguns estudiosos construtivistas como Vygosky e Piaget defendem a importância da comunicação na interação para o desenvolvimento cognitivo, ainda que com visões diferentes.

Através de métodos de ensino colaborativos e ou cooperativos pelo computador pretende-se capacitar os alunos para distintas modalidades: presencial, semi-presencial e não presencial. Apesar de ambos os termos, aprendizagem colaborativa e cooperativa, serem semelhantes, cada uma apresenta características próprias:

Colaborativa: menos estruturada; processo não tão claramente definido (os membros do grupo discutem e negociam o processo); e busca-se a interdependência igualitária (os membros do grupo escolhem).

Cooperativa: o processo é geralmente sugerido ou imposto; e a estrutura do grupo é geralmente imposta (o professor decide).

Algumas experiências positivas, estudos, com o uso desta metodologia de aprendizado colaborativo/cooperativo através de ferramentas de aprendizado em rede são apresentados: WebQuest (aprendizado baseado em problemas; Riaño e González, 2008 ), sinergia (área virtual para compartilhar trabalhos, grupos de investigação; Jimenéz, Llitjós e Puigcever, 2007), Aprendizado baseado em projeto, no qual se comparou esta metodologia de ensino ao rendimento acadêmico (Pérez-Poch, 2006); entre outros estudos tratados no artigo.

As conclusões que chegaram revisando estes estudos foram que o uso das plataformas virtuais como otimizadoras da comunicação facilitam a aprendizagem colaborativa-cooperativa independente do nível educacional dos estudantes. Também geram progressos no desenvolvimento acadêmico, social e cognitivo, pois se utilizam das trocas sócio-cognitivas, as quais podem gerar conflitos e assim construir e reconstruir conhecimentos. O aumento de redes e desenvolvimento de ambientes virtuais que propiciem a criação de um espaço contínuo em que professores e alunos se encontram e trabalham com os recursos de aprendizado já é uma realidade e uma possibilidade para melhorar e ampliar as fronteiras do processo de ensino-aprendizagem.

Bibliografia:

Salmerón Honorio; Rodríguez Sonia; Gutiérrez Calixto. Metodologías que optimizan la comunicación en entornos de aprendizaje virtual. Comunicar, n° 34, v. XVII, 2010, páginas 163-171.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

AVALIANDO A APRENDIZAGEM

Muito tem se discutido sobre os métodos avaliativos utilizados pelos professores atualmente para "quantificar" o conhecimento adquirido pelos alunos em sala de aula. Porém, a qualidade destes métodos avaliativos vem sendo cada vez mais questionada: para muitos as avaliações realmente são capazes de medir a quantidade e a qualidade do conhecimento assimilado pelos alunos; enquanto que para tantos outros as avalições são altamente insuficientes no que se diz respeito à este propósito.

Em trabalho desenvolvido por Rodrigues & Precioso (2010), sobre a qualidade dos testes aplicados pelos professores atualmente para avaliar o conhecimento científico adquirido por alunos do 6º ano, eles discutem que para muitos autores "os testes constituem o instrumento dominante e, por vezes, quase exclusivo da avaliação dos alunos. É fundamental que os professores elaborem estes instrumentos com qualidade, pois da sua aplicação depende, muitas vezes, a classificação atribuída aos alunos e, consequentemente, o seu futuro."

Os testes atualmente, em muitos casos, são aplicados pelos professores como uma forma de controlar e impor respeito aos alunos, uma vez que em muitos casos os alunos só passam a dar valor no que é dito e ensinado pelo professor quando o que o professor está ensinando vai lhes garantir nota, ou evitar que percam pontos (os quais eles valorizam por depender deles para "passarem de ano"); de modo que a preocupação principal, que seria avaliar a aprendizagem dos alunos, é deixada em segundo plano, o que pode interferir na qualidade dos testes elaborados pelos professores.
Os resultados do trabalho de Rodrigues & Precioso (2010) sugerem que "os testes de avaliação apresentam uma clara predominância de questões que visam avaliar o conhecimento substantivo, sendo raras as perguntas que avaliam as restantes competências. Não são colocadas questões relacionadas com o saber processual e epistemológico, e de raciocínio. Podemos admitir, que questionar a Ciência e avaliar atitudes são desempenhos que os professores que realizaram os testes da amostra, ainda não introduziram nas suas práticas avaliativas."

Propor o questionamento da Ciência em sala de alua, sobre como ela funciona e qual sua aplicabilidade no cotidiano dos alunos, é altamente útil e necessário, uma vez que esta ferramenta educativa fará com que os alunos agucem a curiosodade, se tornem perseverantes e desenvolvam atitudes inerentes ao trabalho de Ciências. Assim, se preciso for, estarão aptos para reformular seus trabalhos, sendo sensíveis e éticos para trabalhar com a Ciência.
Concluindo seu estudo, Rodrigo & Precioso (2010) constataram que os testes atuais aplicados pelos professores para avaliar a aprendizagem dos alunos, "avaliam tópicos e objetivos, que na maioria dos casos, parecem não ter interesse para a vida dos alunos e estão fundamentalmente relacionadas com a memorização de conteúdos. Prevê-se que após a elaboração do teste, serão esquecidos, porque não tiveram para o aluno qualquer interesse prático. Este fator poderá constituir uma das causas do insucesso escolar. A aprendizagem de conteúdos desprovidos de significado, algumas vezes inúteis para a vida, poderá conduzir ao desinteresse e, logicamente, ao referido insucesso escolar."

Desse modo torna-se evidente e necessário que a avaliação não se deva primar somente em testes, pois eles sozinhos são incapazes de avaliar o aluno em todos os sentidos. O professor deverá buscar outras alternativas, diversificar e desenvolver uma metodologia em que os alunos sejam atuantes e desenvolvam atitudes e valores.


Referências Bibliográficas:

- RODRIGUES, C. & PRECIOSO, J. Avaliar a avaliação: um estudo efectuado com testes do 6º ano de escolaridade de Ciências da Natureza. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias v. 9, nº 2, pp. 418-434, 2010.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Especulações Sobre o Ensino de Ciências no Brasil Contemporâneo





A importância de saber ciências hoje é algo marcante. Somos capazes, com o conhecimento científico, de questionar as informações inquietantes que a mídia nos traz diariamente.

Pesquisadores pesquisaram outros pesquisadores (isso mesmo!) que estão relacionados ao ensino de ciências. O intuito foi definir o que é característico desta área aqui no Brasil. Foi visto dentre as características, as mais evidentes como a interdisciplaridade e a inserção da história e filosofia da ciência, dentre outras.

A interdisciplinaridade é apontada como uma das características principais para que o aprendizado em ciências seja mais efetivo. Ela é a relação de disciplinas que juntas tentam desvendar o mesmo objeto. Assim entender pela ótica da interdisciplinaridade possibilita ao sujeito uma interpretação do objeto mais próxima da realidade. Exemplo: Dentro da educação ambiental podemos pegar a problemática do lixo urbano (objeto a ser entendido). Será que somente a Biologia conseguiria explicar esse problema de forma que seja o mais próximo do que ocorre no real? Possivelmente não! Para entender o problema do lixo urbano é necessário interrelacionar os conhecimentos de Geografia com os de Biologia, por exemplo, para saber o seu impacto no solo e o tempo que demoraria para degradar na natureza. Entra também os conhecimentos de Química e Física para analisarmos a durabilidade de cada material e o tempo de vida médio de algumas substâncias. Essa análise também demandaria o uso de cálculos, uma ferramenta da matemática. Como o problema do lixo é também um problema social, é natural utilizarmos os conhecimentos das ciências humanas para decifrarmos e atuar de forma positiva construtiva.Com mais abrangência poderíamos filosofar sobre nosso sistema econômico e o modo de produção vigente. Nas escolas é passado o conteúdo de maneira interdisciplinar ou continuamos na forma compartimentada e não relacionada do conteúdo?

Conhecendo a ciência através de uma visão histórica e filosófica é possível compreender melhor seus conceitos e usá-los para entender o mundo contemporaneo. O contexto histórico-filosófico aproximaria o aluno da ciência propriamente dita. A ciência perderia essa característica de produto e seria entendida como um processo, que sempre estará em construção. Segundo Guerra et al, a abordagem histórico-filosófica pode ser entendida como conceito simples:


É o ensino das ciências a partir de uma concepção histórico-filosófica e não a substituição de tópicos do programa de ciências por outros de sua história ou filosofia. Será a partir de um ensino com esta concepção que os alunos irão perceber que as teorias científicas que estão aprendendo não são um "retrato" da natureza, mas sim uma construção teórica que parte da natureza enquanto realidade construída e não como um dado a priori. 

Esta abordagem também visa a integração das diferentes disciplinas, corroborando com o conceito da interdisciplinaridade.

A realidade do ensino de ciências nas escolas ainda é defasada e os alunos não sabem para que ela existe.

Os PCNs (disponíveis na página do MEC) tem a proposta de oferecer subsídios para um novo ensino nas escolas. O ensino deixa de ser mecânico ( por repetição de fórmulas e argumentos) para ser mais interativo, construtivo, interdisciplinar e formador de sujeito que esteja mais apto a diagnosticar e interferir em problemáticas que necessite do conhecimento aprendido. A escola que era preparatória para o vestibular passa a ter um papel crucial de formar cidadãos críticos. No PCN o ensino tradicional é julgado defasado e há uma série de propostas que visam a reforma do ensino. Ao professor de ciências nas escolas cabe promover atividades aos alunos, em que seus interesses e preferências possam se manifestar, suas diferenças individuais possam ser reveladas e valorizadas, o que também contribui para a motivação e o desejo de aprender. 


O sujeito crítico é capaz de perceber que o consumismo não é uma forma consciente do uso dos recursos naturais? Saberá dizer que óleos vegetais realmente não possuem colesterol? 

Creio que estamos em período de transição. Geralmente transições não acontece de um dia para o outro e demanda a vontade de mudanças. Assim, temos um papel crucial para revitalizar a imagem da ciência, desmistificando-a. Torná-la instrumento acessível, mais uma ferramenta para a cidadania e melhoria social. 


Referências:


NARDI, R. ; ALMEIDA, Maria José P M. Educación en Ciencias: lo que caracteriza el área de enseñanza de las Ciencias en Brazil según investigadores brasileños.. REEC. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias, v. 3, p. 24-34, 2008.

GUERRA, A.; FREITAS, J.; REIS, J. C.; BRAGA, M. A. A Interdisciplinaridade no Ensino das Ciências a Partir de uma Perspectiva Histórico-Filosófica. Cad.Cat.Ens.Fís., 15(1), 2-46, 1998




segunda-feira, 24 de maio de 2010

Senso comum e conhecimento científico.

Do senso comum ao conhecimento científico vai uma distância considerável, apesar de que, ao longo dos tempos se verifique uma aproximação.
O primeiro baseia-se nos sentidos, crenças, tradições, acredita no que vê ou sente, é fruto das experiências do cotidiano ou naquilo que se tornou evidente através da evolução da ciência. Esta por sua vez procura através do raciocínio objetivo, assente na faculdade racional do ser humano e em métodos experimentais, a comprovação daquilo que os sentidos nos mostram.

Principais características do senso comum:
  • Caráter empírico - o senso comum é um saber que deriva diretamente da experiência cotidiana, não necessitando, por isso de uma elaboração racional dos dados recolhidos através dessa experiência.
  • Caráter acrítico - não necessitando de uma elaboração racional, o senso comum não procede a uma crítica dos seus elementos, é um conhecimento passivo, em que o indivíduo não se interroga sobre os dados da experiência, nem se preocupa com a possibilidade de existirem erros no seu conhecimento da realidade.
  • Caráter assistemático - o senso comum não é estruturado racionalmente, tanto ao nível da sua aquisição, como ao nível da sua construção, não existe um plano ou projeto racional que lhe dê coerência.
  • Caráter ametódico - o senso comum não tem método, ou seja, é um saber que não segue nenhum conjunto de regras formais. Os indivíduos adquirem-no sem esforço e sem estudo.
  • Caráter aparente ou ilusório - como não há preocupação de procurar erros, o senso comum é um conhecimento que se contenta com as aparências, formado por isso, uma representação ilusória, deturpada e falsa, da realidade.
  • Caráter coletivo - o senso comum é um saber partilhado pelos membros de uma comunidade, permitindo que os indivíduos possam cooperar nas terefas essencias à vida social.
  • Caráter subjetivo - o senso comum é subjetivo, por que não é objetivo: cada indivíduo vê o mundo á sua maneira, formando as suas opiniões, sem a preocupação de testá-las ou de fundamentá-las num exame isento e crítico da realidade.
  • Caráter superficial- o senso comum não aprofunda o seu conhecimento da realidade, fica-se pela superfície, não procurando descobrir as causas dos acontecimentos, ou seja, a sua razão de ser que, por sua vez, permitiria explicá-los racionalmente.
  • Caráter particular - o senso comum não é saber universal, uma vez que se fica pela aquisição de informações muito incompletas sobre a realidade (por isso também se diz que ele é fragmentado), não podendo, assim, fazer generalizações fundamentadas.
  • Caráter prático e utilitário - o senso comum nasce da prática cotidiana e está totalmente orientado para o desempenho das tarefas da vida cotidiana, por isso as informações que o compõem são o mais simples e diretas possível.
Principais características do conhecimento científico:
  • O conhecimento científico baseia-se na evidencia verificável. Isto significa que os seus resultados e conclusões podem ser sempre verificados ou confirmados por outras pessoas. Todas as conclusões devem permanecer abertas, pois no futuro podem aparecer justificativas mais razoáveis. Além disso a ciência nunca é detentora de verdades absolutas.
  • A ciência é eticamente neutra, mas o cientista, por ser um indivíduo, não o é, cada um de nós tem um sistema de valores que influencia a sua vida em sociedade. Desta forma, quando se produz energia nuclear, em paz é para produzir eletricidade, mas em guerra pode ser para produzir mísseis.
  • O conhecimento científico tem por base técnicas específicas para recolher dados, que garantem: exatidão (dados que correspondem aos fatos), e a precisão (dados que refletem bem a medida, o grau desses fatos observados), assim a investigação científica baseia-se numa recolha sistemática dos dados, que devem logo ser registrados, e tudo deve ser feito com objetividade, não devendo ser influenciados por preferências, crenças, desejos e valores.
O senso comum e a ciência.
O senso comum é um saber que se adquire através da vida que se leva em sociedade, por isso, é um saber informal adquirido de forma espontânea através do contato com o próxino, com situações e objetos que rodeiam o indivíduo.

Apesar de suas limitações, o senso comum é fundamental, sem o qual os membros integrantes da sociedade não conseguiriam orientar-se na sua vida cotidiana.

É um saber muito simples, superficial e informal, que não se exige grandes esforços nem bases consistentes que atestam a sua veracidade ou proveniência, ao contrário das ciências, que assentam em conhecimentos formais porque requerem um longo processo de aprendizagem/conhecimento.

A idéia de que todo cientista é uma pessoa de inteligência incontestável é amplamente divulgada pela mídia e essa divulgação não é gratuíta. Com essa imagem de "ser superior" o cientista torna-se um formador de opinião, induzindo o pensamento das camadas populares e vendendo produtos nos comerciais de televisão. Só que a realidade passa longe disso.

Um indivíduo é considerado cientista quando se especializa em um determinado assunto e essa especialização parte de um conhecimento prévio do indivíduo. Em outras palavras, todo indivíduo dotado de um conhecimento prévio comum a todos pode buscar uma especialização. Mas o que é esse conhecimento prévio? É o que se costuma chamar de senso comum.

O senso comum e a ciência partem do mesmo princípio: a necessidade do homem de compreender o mundo e a si mesmo. O ser humano, por milhares de anos, viveu numa sociedade em que não havia ciência e mesmo assim deu continuidade ao processo de evolução. É preciso compreender que sendo a ciência um refinamento do senso comum, devemos então respeitá-lo e não desprezá-lo, já que esse serve de ponto de partida para aquela ou seja a ciência.

Ciência e Educação, vol. 15 nº 3, 2009.
Docio,L; Razera, J. C. C.; Pinheiro, U. S.




domingo, 16 de maio de 2010

BLOGS COMO FERRAMENTA PARA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA




As informações digitais são novas ferramentas para facilitar o envolvimento do público geral nas discussões sobre ciência. Essa participação nas discussões científicas inclui criatividade científica individual, etnociência, conhecimento local e discurso público. A internet tem se tornado uma parte da comunicação científica e ainda não está claro como mídias como fóruns e blogs podem contribuir para os debates da ciência. As pessoas “leigas” podem por esse meio, não serem apenas agentes passivos (receptores) de assuntos científicos, mas podem contribuir com esses debates.

“Blog” é uma webpágina que facilita a comunicação informal entre o autor do blog e seus leitores. Os blogs sobre ciências são um potencial modelo de jornalismo científico e uma ótima ferramenta que pode ser utilizada por instituições acadêmicas para disseminar a informação acadêmica e facilitar a discussão sobre ciência e, ainda, para suprir o déficit de comunicação científica. Os blogs geralmente são comentários jornalísticos e estudantis ao invés de análises baseadas em pesquisa. Para envolver o público o blog precisa: informar leitores sobre notícias científicas, explicar de forma entendível para “leigos”, avaliar resultados de pesquisas já realizadas, articular posições sobre assuntos controversos.

Kouper (2010) fez um estudo sobre os blogs relacionados à ciência, pois não havia nenhum estudo sobre essa nova ferramenta. Devido à novidade da pesquisa, a avaliação dos blogs foi baseada nos participantes, fontes de blog, conteúdos dos tópicos e modos de participação. Foram amostrados da internet 11 blogs pela procura por “science blogs” e “blogs about science” e esses foram “seguidos” durante o verão de 2008 (por 30 dias os blogs menos ativos e por 5 dias muito ativos). O número de comentários amostrados foi limitado aos primeiros 15 comentários por tópico (ao todo, 174 tópicos globais e 1409 comentários dos 11 blogs foram analisados).

Os blogs de ciência cobriram uma variedade de assuntos e tópicos além de ciência. Entre os tópicos relacionados à ciência os tópicos freqüentemente mais cobertos eram evolução, saúde, e espaço. Sendo um gênero mais pessoal de comunicação, blogs permitem maior variabilidade de expressão, e os autores confiaram em sua experiência pessoal, notícias e comentários de outras mídias e documentos de pesquisas para escrevem os textos. Os autores do blogs de ciência examinados são relacionados de alguma forma à ciência: estudantes especialistas em alguma área, pesquisadores, professores de certas disciplinas (como Biologia e Física) e jornalistas científicos.

Uma das características dos blogs é o uso de exageros e generalizações. Os autores de blog usam esta técnica jornalística para chamar a atenção dos leitores, às vezes até de forma sensacionalista. Deste modo, as notícias ficam mais divertidas, contudo pode impedir que os leitores adquiram informações precisas e que formem sua própria opinião, sendo então difícil confiar nessa fonte de informação. A intenção de fazer algo compreensível para o público nem sempre pode alcançar o seu objtetivo e, além disso, há muitas opiniões emocionais e comentários insultantes em alguns blogs mais “polêmicos”.

Leitores de blogs de ciência também tiveram alguma relação com ciência. Eles são estudantes, pós-doutorandos, professores e investigadores de várias áreas científicas. A leitura de blogs e os comentários é uma necessidade para que esses adquiram notícias de várias áreas científicas e de haver diálogo com os autores.

O autor do estudo admite ter havido várias limitações na pesquisa. Devido ao número pequeno de posts e comentários, poderiam ter sido negligenciados certos modos importantes de participação. O papel de humor em comunicação de ciência e interpretação de coletivo de conhecimento também precisa ser examinado. E deve ser analisado também os leitores que apenas sequem os conteúdos, mas não postam comentários (lurkers). E conclui que, em relação aos blogs referentes à ciência, é necessário um esforço em comum de cientistas, jornalistas, pedagogos, e outros grupos de atores para repensar o papel de blog na promoção da participação na ciência. Blogs científicos devem propiciar a participação de pessoas não-cientistas, focalizar em modos explicativos, interpretativos e críticos ao invés de apenas informar e opinar.

Esse texto abre espaço para pensarmos e fazermos uma avaliação sobre o nosso blog. Qual o objetivo do blog “BIOPIBIDUFSJ”? Quem são os autores do blog? Quem são os leitores do blog? Quais são as formas de participação dos leitores?


Blogs pesquisados por KOUPER (2010):

scienceblogs.com/purepedantry

scienceblogs.com/drugmonkey

scienceblogs.com/scientificactivist

scienceblogs.com/pharyngula

www.wired.com/wiredscience

blog.bioethics.net

blogs.discovermagazine.com/cosmicvariance

www.pandasthump.org

scienceblog.com

www.microbiologybytes.com/blog

www.syntesis.cc


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KOUPER, I. Science blogs and public engagement with science: practices, challenges, and opportunities. Journal of Science Communication. 9(1), March 2010.





sábado, 15 de maio de 2010

A INFLUÊNCIA DE GRADIENTES LATITUDINAIS E MIGRAÇÃO NA PREVALÊNCIA DE HEMOPARASITOS EM AVES

A transferência de patógenos como hemoparasitos (parasitos do sangue) em aves é algo que ocorre com certa facilidade, uma vez que a maioria delas têm hábitos gregários, uma condição excelente para a transmissão de vários tipos de parasitos e as subsequentes doenças causadas por eles. Porém, a prevalência de doenças parasitárias em aves ocorre diferentemente ao longo do mundo, uma vez que em cada localidade há a presença, ou ausência, de determinada espécie de hemoparasito. Esta diferença se deve a dois fatores principais: os gradientes latitudinais e a migração das aves.

As variações latitudinais são responsáveis pelas diferenças climáticas que existem em todas as partes do nosso planeta, e com isso, tais variações têm influência direta sobre a prevalência de patógenos e, consequentemente, das doenças causadas por eles em diferentes localidades.

Fig. 1 - Tipos de clima.

Segundo trabalhos de MERINO e colaboradores (2008), foi constatado que os efeitos climáticos sobre o comportamento do inseto vetor e o desenvolvimento do parasita foram responsáveis para a relação entre a latitude e a prevalência do parasita aumentando em direção ao Equador, uma vez que em regiões tropicais o clima é mais propício para uma reprodução mais significativa dos vetores responsáveis por transmitir os hemoparasitos, no caso, entre as aves.

Porém, como já dito anteriormente, a migração das aves também exerce grande efeito sobre a prevalência de patógenos, uma vez que uma ave infectada por determinada doença pode transmitir esta para uma outras aves que vives em um local onde comumente não se encontra a doença, uma vez que para isso basta um simples contato entre elas. Com isto, uma doença que não é comum em determinada localidade entre as aves, pode com o passar do tempo, vir a ser.


Fig. 2 - Aves migrando.

O trabalho de MERINO e colaboradores (2008) com aves de florestas no Chile comprovam que a migração funciona como um fator de "pertubação" das variações latitudinais, pois eles verificaram que duas epécies migratórias de aves não foram encontradas nas regiões onde elas residem, porém foram encontradas em outras regiões e infectadas por hemoparasitos. Desse modo, quando estas espécies voltassem para os locais onde costumam residir, elas também levariam estes patógenos e assim os transmitiriam para grande parte de sua população, que mais tarde também migraria para outros locais, inclusive locais onde estes hemoparasitos não eram presentes, onde os disseminariam juntamente com as doenças causadas por eles.

Dessa forma fica claro e evidente que as variações climáticas, devido as variações latitudinais, são as grandes responsáveis pela prevalência diversificada de patógenos nas diferentes localidades do planeta; mas também fica claro que a migração das aves interfere nesta prevalência determinada pelas condiçòes climáticas, uma vez que as aves podem levar hemoparasitos presentes em determinada região para outra onde eles não são comuns. E assim, para uma menor disseminação destes hemoparasitos e das zoonoses causadas por eles, a melhor alternativa ainda é o combate aos insetos vetores.


Referências Bibliográficas:

- MERINO, S.; MORENO, J.; VÁSQUEZ, R. A.; MARTÍNEZ, J.; SÁNCHEZ-MONSÁLVEZ, I.; ESTADES, C. F.; IPPI, S.; SABAT, P. ROZZI, R.; MCGEHEE, S. Haematozoa in forest birds from southern Chile: Latitudinal gradients in prevalence and parasite lineage richness. Austral Ecology, v. 33, pp. 329-340, 2008.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Pequenas grandes mudanças II

Atenção: este texto é independente da parte I, mas esta pode conter informações interessantes para quem não é da área, e auxiliar no entendimento, aqui. Se desejar, acesse aqui o primeiro texto. Da mesma forma, os links espalhados pelo texto remetem a páginas, deste ou de outros sites, contendo informações a respeito dos termos marcados, para caso haja dúvida a respeito deles.

Neste último mês de abril, a revista Journal of Experimental Botany (Revista de Botânica Experimental), uma das revistas mantidas pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, lançou uma edição especial, falando de forma temática sobre o pólen, seu desenvolvimento e controle da polinização (ver figura 1, grãos de pólen de Arabidopsis thaliana). Um dos trabalhos apresentados nesta edição é de um grupo de cientistas estadunidenses e portugueses que conseguiu, de forma inédita, fotografar o crescimento do tubo polínico in vivo, ou seja, dentro da própria planta, viva. Até então, todas as observações deste tipo tinham sido feitas in vitro, ou seja, utilizando-se apenas pedaços do tecido da planta e o grão de pólen para simular uma situação real. A dificuldade de se observar isso diretamente na planta é devida, principalmente, à grande quantidade de camadas de tecidos totalmente opacos do pistilo – órgão feminino da flor, pelo qual o tubo polínico precisa passar para chegar até o óvulo.

Os cientistas que conseguiram fazer isso utilizaram uma técnica chamada microscopia de excitação por dois fótons (2-photon excitation microscopy), a qual consiste basicamente num equipamento que dispara fótons (laser) de baixa energia em direção do que se deseja ver, fazendo com que uma substância fluorescente no objeto emita radiação luminosa, a qual pode ser fotografada. Para isso, é claro, tiveram de colocar uma substância fluorescente no pólen, para que ele pudesse ser visto enquanto desenvolvesse seu tubo. Isto não foi feito diretamente; os grãos de pólen usados foram retirados de plantas transgênicas, que tiveram seus genes responsáveis pelo desenvolvimento do pólen ligados a uma substância chamada GFP (sigla em inglês para “proteína verde fluorescente”) – deste modo, os grãos de pólen, que contêm estes genes ativos, “acendem” quando expostos ao laser, assim como o tubo polínico formado por eles. Uma das imagens obtidas pode ser conferida na figura 2. Na figura 3, uma eletro-micrografia de varredura do estigma da mesma espécie (livre de pólen), para efeito de comparação.

A planta utilizada foi a Arabidopsis thaliana, uma espécie da mesma família da mostarda e que é muito utilizada para experiências em laboratório, especialmente em estudos genéticos e moleculares, devido ao seu rápido desenvolvimento e genoma relativamente pequeno (foi o primeiro genoma vegetal totalmente sequenciado, com cerca de 26.000 genes). O pólen fluorescente foi retirado da Arabidopsis transgênica e colocado no estigma de uma outra Arabidopsis para ter seu crescimento observado, como esquematizado na figura ao lado. Esta observação permitiu que os cientistas, liderados por Alice Y. Cheung, do departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade de Massachusetts (Estados Unidos), confirmassem visualmente a ação de uma série de controles químicos dentro do pistilo, tais como a nutrição do tubo polínico durante o percurso e orientação e velocidade do seu crescimento.

Legal. Mas se você está chegando agora ao mundo da Botânica, ou mesmo da Biologia, pode estar se perguntando o que diabos é tudo isso. Vamos tentar esclarecer, na seção abaixo.


QUEM É O PÓLEN

A evolução dos organismos não segue nenhuma direção pré-definida, mas às vezes uma nova estratégia apresenta tantas vantagens que ela se mantém, indefinidamente. Quando estudamos a evolução das plantas, observando suas estruturas homólogas, vemos que uma dessas grandes estratégias foi o aumento do tamanho do esporófito, acompanhado do aparecimento de funções cada vez mais diversificadas neste estágio reprodutivo. As mais primitivas dentre as espécies de plantas sobreviventes atuais são as Briófitas (ex.: musgos), e nelas o esporófito depende do gametófito para tudo, desde a absorção de nutrientes do solo à transformação da luz do sol em energia química. Nas Pteridófitas (ex.: samambaia), mais recentes e possuidoras de vasos condutores de seiva, o esporófito já é totalmente independente depois de formado, pois possui raízes e folhas para se alimentar e conseguir energia. Este desenvolvimento em tamanho e função dos esporófitos continuou evolutivamente nos outros dois grandes grupos de plantas mais diferenciadas, Gimnospermas e Angiospermas (este último ao qual pertence a Arabidopsis), cujos esporófitos podem chegar a dezenas de metros de altura, como os da figura 4, foto de sequoias.

No entanto, observando-se estes esporófitos tão independentes, grandes e bonitos das Gimnospermas e Angiospermas, fica uma dúvida: PARA ONDE FOI O GAMETÓFITO? Uma regra bem definida dentro do Reino Vegetal (Embriófitas) é que todas as plantas se reproduzem por meio de uma alternância de gerações, ou seja: um organismo (esporófito) produz esporos, e estes esporos se desenvolvem se tornando outro organismo (gametófito), que é capaz de produzir gametas; dois gametas então se unem para se desenvolverem em outro organismo, um novo esporófito, reiniciando o ciclo. O gametófito está bem visível tanto nas Briófitas quanto nas Pteridófitas, apesar de ser permanente nas primeiras e apenas temporário nas segundas. Mesmo sem ser evidente, portanto, o gametófito tem que existir também em Gimnospermas e Angiospermas, em algum lugar. Mas onde? Notamos que há um aumento do esporófito e uma diminuição do gametófito quando comparamos Briófitas e Pteridófitas; como certamente em Gimnospermas o esporófito aumentou ainda mais, podemos levantar a hipótese de que o gametófito diminuiu ainda mais. Vamos tentar confirmar isto, então.

Ainda há muita discussão sobre a origem exata destes grandes grupos de plantas atuais, e muitos detalhes permanecem desconhecidos. Mas algumas coisas se sabem com razoável certeza, graças aos achados fósseis e às análises moleculares (comparações de DNA, RNA e proteínas entre as plantas). As Gimnospermas surgiram a partir de algum parente próximo das Pteridófitas atuais e, mais tarde, as Angiospermas se modificaram de um grupo de Gimnospermas antigo. Estes dois grupos têm mais em comum do que apenas um esporófito muito desenvolvido – a parte “sperma” dos dois nomes significa “semente”, ou seja, uma das características que diferenciaram as primeiras Gimnospermas (e que se mantiveram nas Angiospermas) foi a semente, responsável por germinar e originar um novo esporófito. Ora, um esporófito não pode gerar um outro esporófito diretamente sem haver uma geração gametofítica intermediária – e a semente surge dentro do esporófito –, então o gametófito tem que estar também dentro do esporófito.

E, realmente, é isso o que acontece. Até antes das Gimnospermas aparecerem, os gametófitos de todas as plantas surgiam a partir de um esporo que abandonava o esporófito e ia germinar fora dele para originar o gametófito, assim como ainda acontece com as Briófitas e Pteridófitas atuais. A grande inovação das Gimnospermas – a semente – explica-se porque, por algum motivo, os esporos delas passaram a se desenvolver dentro do próprio esporófito, no esporângio que as originou. Naturalmente, o gametófito nascerá e crescerá dentro do esporófito. Como elas são plantas heterospóricas, haverá gametófitos masculinos e femininos, os quais produzirão gametas. Ao se encontrarem, os dois gametas se unirão e darão origem a uma semente. Mas, diferentemente do que acontece com as suas primas mais velhas, as Gimnospermas e Angiospermas não têm disponível um meio aquoso que sirva de caminho para que os anterozoides produzidos pelo gametófito masculino se desloquem até o gametófito feminino a fim de se unirem às oosferas. A estratégia que elas desenvolveram, então, foi fazer com que o gametófito masculino inteiro se deslocasse até o feminino (isto mesmo, mesmo sem ter pernas!) e entregasse os anterozoides diretamente, para fecundarem as oosferas.

O gametófito masculino é o famoso grão de pólen. Vários grãos de pólen juntos formam aquele “pozinho” amarelinho que sai dos estróbilos (ex.: pinhas dos pinheiros) masculinos das Gimnospermas e que também está presente nas flores das Angiospermas. O gametófito feminino fica mais escondido, dentro dos estróbilos femininos ou dos ovários das flores, guardando as oosferas. Para chegar ao gametófito feminino, o pólen das Gimnospermas conta com a força do vento para levá-lo e, se tiver sorte, cair dentro de um estróbilo feminino. Ele se fixa próximo à micrópila, onde termina seu desenvolvimento e libera os anterozoides para que nadem até as oosferas. Este vídeo é uma animação (narrada em inglês) que mostra rapidamente como ocorre a reprodução das gimnospermas. Aqui, um outro vídeo, dublado em português.

Nas Angiospermas ocorre mais ou menos a mesma coisa, mas com algumas diferenças importantes. Pra começar, elas não precisam contar com o vento para levar o pólen até o gametófito feminino. Elas desenvolveram uma estrutura muito conhecida nossa, a flor, que fornece alimento, cores e perfumes para que insetos e pássaros venham até ela e façam este serviço inconsciente, carregando pólen de flor em flor. Por isso, aliás, existem tantas Angiospermas diferentes, com tantas flores diferentes. Cada uma evoluiu suas características para atrair melhor algum animal que a ajudasse a se reproduzir. Esta estratégia, no entanto, tornou um pouco mais difícil o encontro dos dois gametófitos. Na figura 5 vemos um esquema generalizado de Angiospermas.

Agora os gametófitos femininos ficam protegidos dentro de uma estrutura a qual chamamos ovário. O pólen deixado lá em cima precisa então desenvolver muito o seu tubo polínico para que este chegue até lá embaixo, onde os óvulos estão, e libere os anterozoides. E é aí que acontece o que foi observado no trabalho citado no início do texto, da equipe de Cheung. A figura 6 é uma imagem que eles conseguiram com seu trabalho. Note como, quando comparado ao esquema da figura 5, o ovário da Arabidopsis é bem maior, indo até próximo do estigma.

Seja nas Gimnospermas ou Angiospermas, ao encontrar a oosfera, o anterozoide a fecunda e esta união dá origem ao esporófito. Ele, no entanto, não se desenvolverá completamente, por enquanto. Com a fecundação, uma série de transformações químicas acontecem, fazendo com que toda a estrutura do óvulo se transforme no que chamamos de semente. Nas Angiospermas, todo o ovário se transforma no fruto. Quando a semente estiver madura, ela poderá continuar seu desenvolvimento e germinar, se as condições permitirem. Mas o mais importante é que, até lá, o esporófito estará extremamente protegido dentro da semente, aumentando sua probabilidade de sobrevivência; o que já não acontece com as Briófitas e Pteridófitas, cujos gametófitos germinam diretamente dos esporos que caem no chão, sem a existência de uma semente para protegê-los durante o início do desenvolvimento.

Vemos, então, que não apenas o aumento de tamanho do esporófito durante a evolução das plantas trouxe vantagens a elas. A diminuição dos gametófitos também foi imprescindível. Se o gametófito masculino não tivesse diminuído tanto, como ele poderia ser carregado pelo vento nas Gimnospermas ou levado grudado no corpo de pequenos insetos, nas Angiospermas? Graças ao gametófito feminino se desenvolver dentro do corpo da mãe é que foi possível que ele e toda a estrutura que o envolve se transformasse em semente, depois de fertilizado pelos gametas do grão de pólen. Claro que toda essa parafernália exigiu que aparecessem, juntos, mecanismos para permitir que o grão de pólen consiga levar os anterozoides até o óvulo. Nas Angiospermas, especialmente, os diversos artifícios utilizados pelas flores para atrair polinizadores tiveram de evoluir – o que, no final das contas, certamente compensou o “esforço”, pois elas são, de longe, as plantas mais numerosas e diversificadas do planeta.


Referências:

Biologia Vegetal, de Peter H. Raven, Ray F. Evert e Susan E. Eichhorn. Guanabara Koogan, 6ª edição, 2001.

The pollen tube journey in the pistil and imaging the in vivo process by two-photon microscopy, de Alice Y. Cheung, Leonor C. Boavida, Mini Aggarwal, Hen-Ming Wu e José A. Feijó. Journal of Experimental Botany, Vol. 61, No. 7, Abril de 2010.


Figuras:

1 e 3: retiradas de ec.europa.eu. Há outras imagens muito interessantes de Arabidopsis, lá.

2, 5 e 6: retiradas de The pollen tube journey in the pistil and imaging the in vivo process by two-photon microscopy, de Alice Y. Cheung, Leonor C. Boavida, Mini Aggarwal, Hen-Ming Wu e José A. Feijó. Journal of Experimental Botany, Vol. 61, No. 7, Abril de 2010.

4: retirada de www.videoscienza.it.

Jogo Doença de Chagas

Vejam que inbteressante esse jogo produzido por um ex-bolsista PIBID em um estágio na FioCruz do Rio.

http://www.invivo.fiocruz.br/chagas/quadrinhos.html

Simples e interativo, útil e belo! Parabéns Samuel! e a toda equipe.

Influência de substâncias no comportamento de abelhas


Todos nós conhecemos um pouco ou já ouvimos falar sobre a interessante organização social entre as abelhas, que por ser tão complexa, até hoje muitos cientistas procuram compreender os vários processos que determinam o comportamento desta sociedade, como por exemplo, qual o tipo de substância presente na geléia real que confere a realeza. E por ser assim tão instigante é que temos tanta curiosidade em conhecer cada avanço no entendimento do comportamento das abelhas sociais.

Em um recente estudo, cientistas têm contribuído para demonstrar a influência de duas substâncias: a proteína vitelogenina e o hormônio juvenil, no comportamento de forrageamento.

As abelhas melíferas vivem em colméias e são organizadas em uma sociedade onde há divisão de trabalho, elas são chamadas de “eusociais” ou “verdadeiramente sociais”. Diferentemente da rainha elas são inférteis e por isso suas funções são cuidar do ninho, da rainha e das irmãs. O forrageamento é um tipo de função que elas desempenham, e isto inclui coletar água, pólen e néctar. A escolha entre coletar néctar (fonte de carboidrato) ou pólen (fonte de proteína) esta correlacionada com variações no comportamento e fisiologia das abelhas.

A atividade das abelhas operárias está relacionada com a idade, no começo consiste em trazer mel das celas de armazenamento para a rainha, zangão e larvas. Depois ela começa a produzir cera, que é exsudada do abdome, passada para frente pelas patas traseiras, mastigada prolongadamente e usada para aumentar a colméia. Essas “abelhas caseiras” também removem companheiras mortas ou doentes, limpam as celas para serem reutilizadas, e servem como guardas na entrada da colméia. Em uma terceira fase é que elas saem para forragear, o inicio deste comportamento esta associado com o desenvolvimento do ovário e com o (JH), ou hormônio juvenil.

Para testar o efeito da vitelogenina , foi utilizado um RNAi ou interferência, que inibe a expressão desta proteína em duas colônias de abelhas, com genótipos para diferentes comportamentos de forrageamento e fisiologia reprodutiva. Com isso eles concluíram que a vitelogenina só afeta a escolha entre coletar néctar ou polén, se as abelhas possuírem sensibilidade à níveis de vitelogenina. Além disso, a diferença da idade de inicio de forrageamento também é influenciado por uma relação mutualística entre esta proteína e o hormônio juvenil.

Desta forma há uma relação de integração da fisiologia do ciclo reprodutivo de fêmeas com o comportamento alimentar. A coleta de proteína (pólen), por exemplo, para uma abelha social, a Lasioglossum zephyrum, é essencial para o seu processo reprodutivo.

A atividade do gene para estas substâncias é essencial para regulação social do comportamento de forrageamento de abelhas, conferindo a elas adaptações especiais para a sobrevivência do grupo. No entanto os fatores que regulam a sensibilidade das abelhas à vitelogenina é desconhecido, e novos estudos em genômica funcional são necessários. Este estudo sugere que o comportamento de forrageamento é dependente da sensibilidade dos indivíduos a um sinal interno, mostrando como as diferenças genéticas entre as duas colônias pode contribuir para produção de características adaptativas, que são importantes para o sucesso ecológico destas sociedades animais.

Referência bibliográfica

IHLE K. E.; PAGE R. E. Jr.; FREDERICK K.; FONDRK M. K.; AMDAM G. V. Genotype effect on regulation of behaviour by vitellogenin supports reproductive origin of honeybee foraging bias. Animal behaviour (2010) 79-1001-1006.

domingo, 9 de maio de 2010

Nós e Outros Animais

Nem sempre lembramos que nós humanos fazemos parte do mundo animal. O que nos faz diferentes do resto dos outros animais? Essa é uma questão antiga que tentamos solucionar antes mesmo da Teoria da Evolução, postulada por Darwin.

No período do pós-guerra fomos classificados como "ferramenteiros" e isso respondia à questão, mas em seguida, na década de 60, foram feitos estudos que observaram esse aspecto nas sociedades de chimpanzés. Os chimpanzés usavam varas que serviam para apanhar cupins (alimento apreciado por eles) como se estivessem pescando. A definição Ferramenteiro já não nos diferenciava. Isso apontou, então, o fato do homem se organizar para caçar, o que também ocorre em diversas sociedades de animais carnívoros.

Tomasello é um dos pesquisadores que investiga os aspectos que nos diferenciam dos outros animais. Seu trabalho explora os aspectos sócio-cognitivos que formam a base da sociabilidade humana. Ele é co-diretor do Instituto Max Planck em Antropologia Evolutiva, e chefe do Departamento de Desenvolvimento e Psicologia Comparada na Alemanha. Nas últimas duas décadas, Tomasello e seus colaboradores desenvolveram pesquisas que identificaram os processos cognitivos e culturais que distinguem o Homem dos outros animais através da comparação com seus parentes vivos mais próximos, os chimpanzés. Os pesquisadores usaram conceitos da Antropologia, ciência que estuda o homem e sua totalidade, e conceitos de Comportamento animal, uma das ciências dentro do vasto leque das Ciências Biológicas. Tomasello observou no comportamento humano alguns parâmetros que poderiam ser a chave para a diferenciação dos outros animais como por exemplo o comportamento de cooperação, que foi observado em bebês humanos e chimpanzés jovens.

A cooperação é um fenômeno estudado por Biólogos, Psicólogos, Antropólogos, Filósofos, etc. A Biologia Evolutiva interpreta o fenômeno da cooperação como um comportamento em que um indivíduo interage de forma ativa gerando benefício a outro(s) individuo(s). A cooperação ocorre em diversos sistemas biológicos, podendo ser vista do nível molecular aos organismos complexos.

Através da análise do comportamento de crianças humanas, Tomasello afirma que nossa espécie é fundamentalmente cooperativa. O experimento era feito com dois indivíduos e consistia em colocar longe do primeiro sujeito um objeto e ver se o segundo sujeito entregava-o ao sujeito um. Com crianças o objeto escolhido foi um lápis. No experimento, essas crianças eram colocadas em uma sala para escrever uma carta e após certo tempo era retirado o lápis de seu alcance, então uma segunda criança era observada diante daquela situação. As opções era colaborar com o outro ou ignorar. No caso dos chimpanzés, ao invés do lápis, o objeto utilizado era uma vareta, ao qual o animal tem mais apreço, e da mesma forma era retirado de seu alcance e observava o comportamento do outro chimpanzé. A grande maioria das crianças pegava o lápis e o entregava à outra criança, já no caso dos chimpanzés a situação era outra: ou o segundo animal ignorava o primeiro ou acontecia brigas acirradas por causa da vareta.
Yamamoto, outro cientista que investiga o fenômeno da cooperação  demonstra que os chimpanzés são mais aptos a cooperarem entre si quando recebem pedido de ajuda. Quando o indivíduo que necessitava de ajuda se comunicava, fazendo o pedido por socorro, a cooperação chegou a níveis de 75%. Em indivíduos aparentados essa cooperação era de aproximadamente 85% dos casos. Em contraste com os seres humanos, sugere que os chimpanzés raramente realizam atos  voluntário. A falta de cooperação nos Chimpanzés pode ser explicada pelo ambiente competitivo em que vivem, sendo que desde cedo eles estão habituados a procurar comida e competir com outros caso estejam ameaçados de alguma forma.

Michael Tomasello explora os aspectos sócio-cognitivos que formam a base da sociabilidade do ser humano.  Através de seus estudos, a mensagem chave é que os seres humanos são fundamentalmente cooperativos. Esta atitude cooperativa poderá se corromper durante o desenvolvimento do indivíduo na sociedade humana. Mas o ponto central para Tomasello é a presença deste instinto cooperativo, sendo esta característica que nos diferencia dos nossos parentes vivos mais primitivos.

O fato é que chegamos a essa posição através dos mesmos processos evolutivos que atuam nos seres vivos. No entanto possuímos o que não foi ainda encontrado em nenhum outro animal: a evolução cultural que fornece uma retroalimentação positiva constante. A capacidade de pensamento conceitual, a comunicação por linguagem simbólica, e principalmente a capacidade de manipular o ambiente em que vivemos estão dentro dos conceitos de cultura, sendo ela um diferencial entre nós e outros animais. Cultura é o que nos diferencia em um conjunto de muitas semelhanças com os outros animais.
Mas, será mesmo que sempre estamos conscientes de que fazemos parte do mundo animal? O que lhe passa na cabeça quando avista uma placa dizendo que é proibido animais naquele estabelecimento?


Referências:
Fischer J (2010) Why We Conform. PLoS Biol 8(2): e1000277. doi:10.1371/journal.pbio

Warneken F, Hare B, Melis AP, Hanus D, Tomasello M (2007) Spontaneous altruism by chimpanzees and young children. PLoS Biol 5(7): e184.

Kappeler PM, van Schaik CP (2006) Cooperation in primates and humans:
Mechanisms and evolution. Berlin, Heidelberg: Springer-Verlag